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Tennessee Williams e o Cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.10

 

Este post poder-se-ia chamar "a insondável alma humana". Só que a alma, para Tennessee Williams, é muito mais complexa do que normalmente a consideramos. E muito mais terrena. É também essa a minha perspectiva: a alma humana enraíza-se como uma árvore a um território, a uma terra viva. Está ligada ao desejo, aos sonhos, às mágoas, à verdade que enterramos e escondemos, ao medo original, ao desamparo, à carência do amor, à dor inconsolável.

 

Nunca conseguirei explicar aqui a ressonância dos textos de Tennesse Williams na minha própria alma. A sua voz, ou melhor, a das personagens, é poética e cruel, expõe o que escondemos e a verdade de que fugimos.

É um dos meus autores, se assim o posso dizer. As suas peças são sequências de frases, de sínteses, de pequenos choques, que nos emocionam, quase sempre hipnotizam, vêm carregadas de electricidade e deixam-nos um calafrio. Não conseguimos escapar, não é possível. Tudo aquilo faz sentido, é a própria natureza humana, sem disfarces nem maquilhagem.

 

Por isso as suas peças são tão cinematográficas: A Streetcar Named Desire... Cat on a Hot Tin Roof... The Fugitive Kind (Orpheus Descending)... Suddenly, Last Summer... The Roman Spring of Mrs. Stone... Sweet Bird of Youth... The Night of the Iguana... The Glass Menagerie...

 

aqui coloquei a navegar Suddenly, Last Summer e também Cat on a Hot Tin Roof. E já aqui chamei as minhas personagens preferidas de Deborah Kerr, Hannah Jelkes, e de Richard Burton, Rev. T. Lawrence Shannon, em The Night of the Iguana.

 

O impacto deste segundo Suddenly, Last Summer, que revi há uma semana, foi ainda mais intenso do que a primeira vez. Raramente isso me acontece com os filmes. Talvez eu não tenha apreendido todo o seu significado da primeira vez.

Aquele jardim sinistro, uma réplica da floresta original, em que tudo se devora numa lógica indiferente e cruel, essa lógica que é traduzida de forma estranhamente próxima no relacionamento humano.

Sim, recordava bem esse jardim na casa de Violet Venables. E da forma absolutamente alucinada como ela se refere ao filho Sebastian, e ao significado da vida, do amor, da poesia. Vemos todo o horror paradoxal da sua descrição da viagem com o filho às Encantadas, como ele lhe mostrara a crueldade da natureza, como lá tinham voltado para ver como os pássaros devoravam as tartarugas recém-nascidas.

 

Talvez tivesse de ver muitos outros filmes entretanto para realmente ver este Suddenly, Last Summer. Desde a forma absolutamente mágica como esta peça é transformada em linguagem do cinema, as cenas, os planos, o ritmo, o movimento, as frases, os diálogos, os cenários, a fotografia. Tudo está perfeito. Mesmo os actores:

- Gostei muito de ver Montgomery Clift no papel de médico, que veste na perfeição, a postura correcta, o registo convincente;

- também com Elizabeth Taylor, talvez me tenha precipitado ao considerar Maggie the cat o seu papel, pois esta Catherine está verdadeiramente magnífica;

- e que dizer de Katharine Hepburn?, uma Violet Venables inquietante, arrepiante por vezes.

 

Ainda consigo ficar estupefacta com a estranha modernidade destes filmes! A sério! É como se fossem, também eles, intemporais. A sua poesia é eterna, talvez porque as frases de Tennessee Williams são eternas, talvez porque se ligam estranhamente à própria natureza humana.

Teremos mudado assim tanto desde a selva e a violência da sobrevivência, numa lógica cruel de predadores e as suas presas?

E não é estranho que só adoece quem está perto de uma consciência humana? Catherine, talvez o exemplar mais saudável e terreno daquela família, adoece com a verdade insuportável de tão dolorosa.

A mãe está pronta a sacrificá-la por dinheiro. O irmão nem reflecte nas consequências.

Violet tinha dito: Como é possível de uma família de naendertais sair um milagre da natureza?E no entanto... também ela pressiona os médicos para operar a verdade, extraí-la da memória da sobrinha, como se a verdade fosse operável.

É só com a aceitação total, sem reservas, do terrível segredo de Catherine, que a sua cura é possível. Só a verdade cura. Embora pressionado pelo director do hospital para a operação da jovem mulher, o médico hesitará até ao fim, até desmontar o puzzle dessa verdade terrível, e desvendar o que acontecera realmente no verão passado.

A verdade encerra o inaceitável para a mãe de Sebastian, que não conseguirá lidar com ela. A verdade sobre a natureza do filho, sobre a sua relação com o filho. A sedução como organização de vida. O desejo, sempre insaciável, sempre insaciado. E a utilização das pessoas, como dirá a jovem mulher ao médico: Amar não é utilizar as pessoas? Catherine fora útil ao primo nesse verão, servira de isco nessa caça, forma primitiva e simples da natureza primordial.

Estaremos assim tão longe da natureza primordial? É isso que nos arrepia em Tennessee Williams: ele revela-nos o nosso rosto e, de certo modo, o rosto de Deus. A nossa percepção de Deus. Aqui, Deus é a natureza que se devora numa lógica implacável.

 

Em The Night of the Iguana, Deus é o poder que tudo decide, naquela noite em que as duas personagens libertam o animalzinho. Também é o Deus da aceitação de todas as criaturas tal como são, só porque são humanas, nada mais (Hannah Jelkes). Também é o Deus de todas as possibilidades, como finalmente terminar um poema, precisamente antes de morrer (o avô dela). Ou descobrir que se chegou a casa depois de todas as aventuras e desilusões filosóficas e morais (Rev. T. Lawrence Shannon).

 

Em A Streetcar Named Desire, vemos que o próprio desejo é também ele insondável, não lhe percebemos a lógica, mas vemos aqui a sua força, o seu poder. Uns perseguem-no ou ficam a ele presos, outros fogem para outros territórios, para outros planos onde possam existir. De muitos misfits no cinema, esta personagem, Blanche Dubois, é uma das mais trágicas e poéticas. Também é uma das mais parodiadas noutros filmes e séries de televisão, nem sei bem a que propósito, porque aquela frase soa-me ao desamparo mais paradoxal que há, porque soa estranhamente teatral: Sempre dependi da amabilidade de estranhos...

Magnífica Vivian Leigh!, e também noutro Tennessee Williams: The Roman Spring of Mrs. Stone. Li o livro ainda no tempo da idade impressionável (trata-se de uma novela) antes de ver o filme, o que faz muita diferença. O filme aproxima-se muito desse sentimento terrível da percepção da idade como decadência física, como se fosse uma doença. É terrivelmente actual, porque é para essa obsessão que se está a caminhar. É certo que para uma actriz a idade tem imensa importância porque pode impedi-la de aceder a certos papéis.

No livro, lembro-me bem, Tennessee Williams é implacável. O seu olhar vê como um lazer, através da superfície, mas a sua voz, a sua voz é incrivelmente poética e sintética. Nunca vi escrever assim...

 

E ainda me falta falar de Sweet Bird of Youth e The Glass Menagerie.

Do primeiro, fixei sobretudo aquele par trágico, Chance Wayne (incrível Paul Newman) e Heavenly Finley (Shirley Knight). E a predadora Alexandra Del Lago (magnífica Geraldine Page). E como é frágil e, no entanto, resistente, o doce sabor do amor. Interessante este desmontar da linguagem do poder, através do pai de Heavenly, de como utiliza e tritura todos os que o rodeiam para conseguir os seus objectivos, como mantém uma mentira na maior hipocrisia. Como se é imune aos sentimentos dos mais próximos, ao seu sofrimento, mesmo humilhação pública.

Do segundo, e é o segundo Paul Newman aqui, registei o papel de Joanne Woodward. Mas também de John Malkovich. Gostava igualmente de ver a versão desta peça num filme de 50, sobretudo pelos actores, Jane Wyman e Kirk Douglas.

Finalmente, também gostava de ver The Fugitive Kind (baseado na peça Orpheus Descending), de 59, com o Marlon Brando e a Anna Magnani.

 

 

 

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publicado às 20:37

O Natal e o amor genuíno

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.09

 

O Natal sugere-nos autores como Charles Dickens, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde...

E filmes como os Capra ou alguns musicais: Meet me in Saint Louis, por exemplo, que em breve aqui quero colocar a navegar... ou o eterno Música no Coração...

 

Este Natal dou por mim a lembrar-me de cenas de filmes que em princípio nada têm a ver com o tema que procuro, mas que os meus neurónios insistem em associar. E é assim que hoje me surge o Tennessee Williams e o Richard Brooks em Gata em Telhado de Zinco Quente.

Um patriarca poderoso, uma família a gravitar à sua volta, mulher submissa e primogénito obediente incluídos, duas noras, uma ambiciosa, outra realista.

Um único elemento foge ao seu controle: o filho mais novo, o seu bem-amado.

Podem questionar-me, o que é que isto tem a ver com o Natal, que eu direi: Tem tudo. Uma família, conflitos de interesses, discussões, lutas pelo poder. E a possibilidade, milagrosa, da comunicação entre um pai poderoso e um filho falhado.

Há aqui de certo modo a repetição da Parábola do Filho Pródigo, mas em que este filho se torna a solução de todo o dilema da linguagem do poder, quando o poder se desmorona.

 

A cena-chave é a conversa pai-filho na cave da casa, já perto do final do filme. Por esta altura, já todos sabemos (menos o próprio) que o patriarca está muito doente, que os resultados dos exames médicos a que se submetera tinham confirmado o pior.

Também sabemos que o filho mais velho, instigado pela mulher ambiciosa, prepara o terreno para suceder ao pai nos negócios e na gestão da propriedade. Vemos desde o início a forma sistemática de apropriação do poder, em que tudo é jogado ao milímetro, usando os próprios filhos (e são muitos e barulhentos) como animais de circo amestrados.

A mulher realista, aplica-lhes um nome que lhes cai na perfeição: no neck monsters. Avisa aliás o marido da sua situação vulnerável e em clara desvantagem em relação ao irmão: tornara-se um alcoólico e não têm filhos.  (1) Acorda-o para a sua própria realidade: como irá sustentar o vício se o irmão tomar o controle de tudo? Sei o que é ser pobre, diz-lhe também. Vemos como esta mulher defende o marido das críticas da cunhada e como utiliza as únicas armas que tem: a capacidade de agradar aos homens, é jovem e bonita. Sabe, e di-lo ao marido, que o Big Daddy gosta dela.

Sim, por esta altura também sabemos que a mentira se instalou naquela casa. E o cerco começa a fechar-se à volta da mulher submissa, da que toda a vida vivera na sombra do patriarca, que a ele se dedicara, mesmo que negligenciada. É aqui que percebemos a diferença abissal entre as noras: a ambição mesquinha e a defesa de um lugar legítimo. Na ambição mesquinha não há lugar para o respeito, a sensibilidade e a compaixão. Atropela-se tudo e todos pelo caminho.

A cena-chave surge mais ou menos por aqui. O Big Daddy refugia-se na cave e é aí que enfrenta a verdade pela primeira vez. A verdade que se recusa a aceitar no início. Mas que as dores cada vez mais fortes lhe vão revelando. E finalmente, a frontalidade do próprio filho.

 

Porque gosto tanto desta cena? E porque a associo ao Natal? Aí vai:

Este filho, alcoólico, desportista falhado, mostra ao seu pai, poderoso e dominador, que a verdadeira força está no amor genuíno e não nas coisas que lhes dera.

É nesse desespero do filho, a partir objectos de viagens pela Europa, que o pai finalmente percebe a diferença: You owned us! é bem diferente do amor que ele próprio tivera em miúdo.

É isso que finalmente percebe quando pega na única coisa que o seu próprio pai lhe deixara, uma velha mala, uma velha mala, insiste, e um velho uniforme.

Mas o seu olhar ilumina-se imediatamente ao falar do pai, daquele velho vagabundo, e da felicidade desses anos juntos, da alegria do companheirismo, do amor genuíno.

 

Às vezes temos de ir às origens, à raíz, escavar emoções e sentimentos, o essencial de nós. Pode ter sido fugaz, breve, e muito longínquo, mas é isso que conta, a base de tudo, a nossa razão de viver. Só a partir daí é possível enfrentar a morte próxima, ou o fracasso e a cobardia.

O realizador deu esta tónica ao filme. O Big Daddy sai da cave determinado a viver os últimos dias que lhe restam de uma forma significativa. E o filho liberta-se finalmente do seu próprio pesadelo e deixará de rejeitar a mulher.

 

Não era esse o final que o Tennessee Williams queria, nem era essa a tonalidade da peça, segundo o que percebi num documentário. Mas eram os anos 50. (2) E também o que me prende ao filme não é essa perspectiva de análise possível das personagens. O que me prende ao filme é a discussão pai-filho naquela cave.  (3)

 

 

 

(1) Elizabeth Taylor aqui talvez no seu melhor papel de sempre, mulher sensual e insinuante, que o marido rejeita. A sua insistência mostra a sua força interior. É bem verdade que esta mulher tem vida dentro de si, como lhe dizem na cena final do filme.

(2) De certo modo, esta peça de Tennessee Williams é muito actual, numa altura em que se fala da forma mais ignorante, artificial e espalhafatosa das complexidades individuais, em que se reduz a identidade de alguém às suas opções pessoais de vida. Na peça há uma clara referência à homossexualidade recalcada do filho alcoólico e da sua relação com o amigo que se suicidara. Esta perspectiva da personagem é mais verosímil do que a apresentada no filme e não me admira nada que o Tennessee Williams tenha ficado decepcionadíssimo com as cenas finais. Mas como disse ali atrás, eram os anos 50, os anos moralistas do cinema.

(3) É também o meu papel preferido de Paul Newman, de copo na mão, no papel de desportista falhado, de desistente da vida. Embora tenha de reconhecer que poucos são os papéis que representou que eu não tenha adorado!

 

 

 

 

 

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publicado às 21:27

Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.08.09

 

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias. Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

 

 

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publicado às 22:13

A vida sonhada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.11.08

 

A obsessão dos sonhos infantis. Sonhar com o Paraíso e descobrir que se perdeu o essencial, e que o Paraíso é, afinal, um mausoléu.
Fascinante, perfeita, esta reprodução fiel de toda uma atmosfera irreal. Porque irreal é a vida da rapariga, Angel. As grandes ilusões, as busca que julga essenciais, só porque em criança olhou, através de um portão, todo um mundo que lhe pareceu mágico: o Paraíso.
Vemos tratar-se de um melodrama. E vemos que aquela atmosfera nos lembra outra época do cinema: cenários delirantes, salas enormes, janelas altíssimas, reposteiros que parecem descair do céu. François Ozon dir-nos-á, na entrevista (no DVD), que Angel é essencialmente uma homenagem aos retratos de época dos anos 30 e 40, muitas vezes elaborados por realizadores europeus, expatriados devido à guerra.
Revela ainda ter ficado fascinado com o livro (1) e com a personagem Angel que é baseada, aliás, numa grande escritora, contemporânea de Óscar Wilde e preferida da Rainha Vitória, actualmente completamente desconhecida, mesmo do público inglês. Terá sido uma das primeiras escritoras inglesas com best-sellers. E explica que, na sua adaptação, procurou alimentar-se das suas próprias obsessões, da sua visão do livro, da sua interpretação do enredo. Refere ainda que Angel não é uma personagem simpática, inspira sedução e rejeição. (2)
É fascinante acompanhar este amor ao Cinema, esta paixão, diria mesmo, de François Ozon! E isso é visível na entrevista. Para evidenciar que a história de Angel está mais na sua cabeça do que na realidade, por exemplo, recorre a técnicas utilizadas no Cinema até aos anos 50: montagens de imagens que passam por trás dos actores. (3)
Quem ama o Cinema, o cinema-arte, o cinema quase perdido, gostará de ver Angel. O enredo é melodramático, intenso, excessivo. François Ozon dar-lhe-á uns retoques que resultarão de forma surpreendente no filme. E as personagens, muito bem construídas. Os actores, maravilhosamente dirigidos. (4)

 

E vamos então às personagens:
Angel: cria um mundo de fantasia onde vive e se refugia. Dela se poderá dizer que a loucura é sedutora e que os sonhos infantis são obsessivos. Sonha com uma vida principesca, como a crianças. Nega e rejeita a sua realidade, de quem mora por cima da mercearia, onde a mãe passa o dia, numa rua que considera feia e deprimente. A lógica da sua vida será essa: perseguir o sonho até o encontrar.
A mãe de Angel: simboliza a vida simples, a sensatez, a dedicação, a responsabilidade, o convívio, os afectos genuínos, a generosidade. É o grande amor pela filha que a perderá. Deixar-se-á envolver pela sua loucura, segui-la-á naturalmente para o casarão e aí murchará a olhos vistos. Ali não há lugar para o convívio sequer. Perdeu todas as referências: o contacto com afectos genuínos, uma rotina de cuidar dos outros, de ser útil e necessária a alguém.
O editor: ficará de imediato fascinado, seduzido, por toda aquela energia de Angel, que tentará disciplinar um pouco, mas sem qualquer resultado. A rapariga é obstinada, completamente fechada a sugestões. Para quem já tem todo o seu futuro programado na cabeça, ao ponto de nada nem ninguém lho poder alterar, como poderia aceitar alterar pormenores dos seus romances delirantes? Mas o editor já se rendera ao seu encanto e, além de publicar os seus romances delirantes, sem nada alterar, será para ela uma figura paternal, recebê-la-á em casa, apesar da irritação que provoca na mulher, que não tem paciência para raparigas patetas.
A mulher do editor: ainda atraente, há nela uma mistura sedutora de sensatez e de ironia, cultura e requinte, inteligência e frontalidade. Talvez um pouco cínica, mas apenas como forma de se adaptar melhor a uma sociedade artificial e fútil onde o casal se movimenta. Inicialmente irritada e impaciente com aquela criatura arrogante, lamentará mais tarde os seus infortúnios e aceitará filosoficamente o fascínio do marido por ela.
Esmé, o marido de Angel: o homem em quem Angel fixa a sua obsessão. O seu amor (dela) é intenso, excessivo, sufocante. Deixa-se amar por ela, porque lhe convém a protecção financeira. Ou também porque ela é a única que acredita no seu valor artístico. François Ozon coloca-o, no filme, como representante dos artistas que se antecipam à sua época, os incompreendidos: vemos os seus quadros empilhados no estúdio porque ninguém lhos compra, a não ser Angel.
Nora, a irmã de Esmé: é a amiga fiel, sim, como um cão fiel, que vive na sombra de Angel. É a pessoa que idolatra os outros, apagando-se. De certo modo, aqui a alimentar o narcisismo, o egocentrismo de Angel. É um suporte emocional e afectivo, a confidente, com quem se conta sempre. Ficará com Angel até ao fim...
Mas antes de verem o filme e descobrirem como François Ozon transportou a história para a linguagem do Cinema, fechando-a, de forma dramática, as cenas que escolhi:

- nessa noite fria, quase fantasmagórica, Angel e o editor olham, através do portão, o Paraíso. Angel fala-lhe do seu sonho de infância, de como passava por ali e ficava a olhar, através das grades do portão, todo um mundo sonhado... O editor ouve-a, atentamente. E então colhe uma flor de uma trepadeira e oferece-lha: Uma dádiva do Paraíso...
- o editor conversa com a mulher e fica surpreendido ao vê-la dizer que lamenta o infortúnio da rapariga: Não consigo aceitar a escritora, mas aprendi a admirar a mulher, a forma como lutou pelos seus sonhos. E mais surpreendido fica quando a mulher lhe pergunta se ainda está apaixonado por ela: O que te leva a dizer isso? A mulher responde: Os teus olhos...

 

Angel verá, no final, que a sua foi uma vida sonhada. Mas nós sabemos que houve alguns momentos de verdade. Foi ao editor que ela confiou o seu sonho e os seus medos: a fealdade de uma rua e de uma vida obscura.
Aqui sobrevivem e resistem as personagens que melhor se adaptam à vida real. Nora irá tentar manter a sua memória, embora, como diz ao editor, os seus livros já não sejam populares. François Ozon consegue aqui uma certa ironia histórica: Angel, que utiliza a sua arte para agradar ao público, o que a torna famosa e rica, é completamente esquecida; Esmé que, contrariamente a Angel, procura na arte a autenticidade e que é incompreendido na sua
época, será reconhecido após a sua morte.

 

(1) de Elizabeth Taylor, sim, perceberam bem...

(2) Para construir a personagem Angel, inspirou-se em Scarlett O'Hara - magnífica Vivian Leigh!

(3) Lembram-se dos filmes em que os actores viajam de carro, sobretudo, e a imagem corre por trás? Hitchcock utilizou-a com frequência.

(4) ...com algumas peripécias de comunicação: deliciosa descrição da reacção de Sam Neill que não percebe o francês e que é apoiado pela colega e amiga Charlotte Rampling.

 

 

 

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publicado às 12:11

A violência da natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 29.08.07

Nunca como em Tennessee Williams e Suddenly, Last Summer, percebemos e sentimos a violência da natureza, e mesmo da natureza humana, que acompanha a violência da natureza.

Aquele jardim tenta reproduzir a criação original, na sua pureza original. É que, queiramos aceitá-lo ou não, convivemos mal com a natureza na sua versão original. É com as versões domesticadas que nos habituámos a viver. É nelas que aprendemos a viver. E no entanto… trazemos nos genes essa violência original que queremos negar. Talvez até seja daí, dessa nossa origem, que venha a ideia de “pecado original”. A que voltamos de vez em quando, obedecendo à nossa natureza.

A civilização é uma construção elaborada, em camadas, sobre essa violência original. Só assim se pode proteger o mais fraco, o desprotegido, o vulnerável. Ou sequer sentir compaixão: identificarmo-nos com a sua dor, reconhecermo-nos na sua vulnerabilidade.

Mas será que a corrida das tartarugas-bébé para o mar, essa terrível saga pela sobrevivência, não se repete ainda, todos os dias? De forma visível ou invisível, em campo aberto ou em campo encoberto?

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 12:19


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